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quinta-feira, dezembro 25, 2014

O PAPA ENTREVISTADO: PALAVRAS SIMPLES



As palavras do Papa, palavras simples e que lavam.
para memória futura, em construpintar02 e Desenhamento


O papa Francisco concedeu uma entrevista na segunda-feira, 9 de Junho de 2014, ao jornalista português Henrique Cymerman, e foi transmitida na SIC no dia 13 de Junho.

Apresentamos excertos desta entrevista, em que o papa diz ao jornalista português que a ele se deve «boa parte» da realização da oração pela paz que no domingo reuniu no Vaticano o papa Francisco, os presidentes de Israel e da Palestina e o patriarca ecuménico Bartolomeu.
A perseguição aos cristãos, os fundamentalismos, a segurança pessoal, a pobreza e humildade, o dinheiro e a guerra, o judaísmo, a relação com as Igrejas ortodoxas, a relação entre fé, ciência e ateísmo, o pontificado de Pio XII e uma eventual renúncia são alguns dos temas da entrevista. Eis alguns excertos:

Cristãos perseguidos
«Os cristãos perseguidos são uma preocupação que me toca de perto como pastor. Sei muitas coisas sobre estas perseguições que não me parece prudente contar aqui, para não ofender ninguém. Mas há lugares nos quais é proibido ter uma Bíblia ou ensinar o catecismo ou andar com uma cruz. O que quero tornar mais claro é isto: estou convencido de que a perseguição contra os cristãos é hoje mais forte do que nos primeiros séculos da Igreja. Hoje há mais cristãos mártires do que naquele tempo. E não é fantasia, fantasia, os números o dizem-» O fundamentalismo «[A violência em nome de Deus] é uma contradição. Não corresponde ao nosso tempo, é algo de antigo. À luz da perspetiva histórica devemos dizer que nós, cristãos, por vezes, praticámo-la. Quando penso na Guerra dos Trinta Anos, era violência em nome de Deus. Hoje é inimaginável, certo? Por vezes chegamos, através da religião, a contradições muito sérias e muito graves. O fundamentalismo, por exemplo. Nas três religiões [monoteístas] temos os nossos grupos fundamentalistas, pequenos em relação a todo o resto. Um grupo fundamentalista, mesmo se não mata ninguém, mesmo se não atinge ninguém, é violento. A estrutura mental do fundamentalismo é violência em nome de Deus.»

Revolução
Para mim, a grande revolução é ir às raízes, reconhecê-las e ver o que elas têm a dizer ao dia de hoje. Não há contradição entre ser revolucionário e voltar às raízes. Mais ainda, creio que o modo de fazer verdadeiras mudanças é partir da identidade. Nunca se pode dar um passo na vida se não a partir do que o precede, sem saber de onde venho, que nome tenho, que nome cultural ou religioso tenho.»

Segurança                                                                                                                     
Sei que me pode acontecer alguma coisa, mas está tudo nas mãos de Deus. Recordo que no Brasil me prepararam um papamóvel fechado, com vidro, mas eu não posso saudar um povo e dizer-lhe que o amo dentro de uma lata de sardinhas, mesmo que seja de vidro. Para mim isso é um muro. É verdade que me pode acontecer alguma coisa, mas sejamos realistas: na minha idade não tenho muito a perder.»



Igreja pobre e humilde
«A pobreza e a humildade estão no centro do Evangelho, e digo-o no sentido teológico, não sociológico. Não se pode entender o Evangelho sem a pobreza, que  no  entanto é diferente do pauperismo. Acredito que Jesus queira que os bispos não sejam príncipes, mas servidores.»

Idolatria do dinheiro ---------------------------------------
«Está provado que com a comida que sobra poderíamos dar de comer a quem têm fome. Quando vê a fotografia de crianças desnutridas em diversas partes do mundo, mete as mãos entre a cabeça, não se percebe. Creio que vivemos num sistema mundial que não é bom, No centro de todo o sistema económico deve estar o homem, o homem e a mulher, e tudo o mais deve estar ao serviço do homem. Mas nós pusemos o dinheiro no centro, o deus dinheiro. Caímos num pecado de idolatria, a idolatria do dinheiro.
A economia move-se pelo afã de ter mais e, paradoxalmente, alimenta-se uma cultura do descartável. Descartam-se os jovens quando se limita a natalidade. Descartam-se também os idosos porque deixaram de servir, não produzem, são uma classe passiva... E descartando os jovens e os idosos, descarta-se o futuro de um povo porque os jovens impulsionam fortemente para a frente e porque os idosos nos dão a sabedoria, têm a memória desse povo e devem transmiti-la aos jovens. E agora também está na moda descartar os jovens com o desemprego. Preocupa-me muito o índice de desemprego dos jovens, que em alguns países ultrapassa os 50 por cento. Alguém me disse que 75 milhões de jovens europeus com menos de 25 anos estão sem trabalho. É uma barbárie. Nós descartamos toda uma geração para manter um sistema económico que já não se aguenta, um sistema que para sobreviver deve fazer a guerra, como sempre fizeram os grandes impérios. Mas como não se pode fazer a terceira guerra mundial, fazem-se guerras regionais. O que é que significa isto? Significa que se fabricam e vendem armas, e assim as contas das economias idólatras, as grandes economias mundiais que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente              que se recuperam.. Este pensamento único tira-nos a riqueza da diversidade de pensamento e, portanto, de um diálogo entre as pessoas. A globalização bem entendida é uma riqueza. Uma globalização mal entendida é aquela que anula as diferenças. É como uma esfera, com todos os pontos equidistantes do centro. Uma globalização que enriquece é como um poliedro, todos unidos para cada um conserva a sua particularidade, a sua riqueza, a sua identidade. E isto não acontece.»

Divisões entre Catalunha e Espanha-----------------------
«Todas as divisões me preocupam. Há a independência por emancipação e há a  independência por secessão. As independências por emancipação, por  exemplo, são as americanas, que se emanciparam dos estados europeus.
As independências dos povos por secessão são um desmembramento por vezes muito óbvio. Pensemos na antiga Jugoslávia. Obviamente, há povos com culturas tão díspares que nem com cola se podem unir. O caso jugoslavo é muito claro, mas eu pergunto-me se é assim tão claro para outros casos, para outros povos que até agora têm estado unidos. É preciso estudar caso a caso. A Escócia, a Jordânia, a Catalunha. Haverá casos em que serão justas, outras em que não serão. Mas é preciso que a secessão de uma nação sem que tenha havido um antecedente de união forçada seja considerada com pinças e analisada caso a caso.»

A oração pela paz______________________________
 «Sabe que não foi fácil, porque tinha as mãos na massa e a si se deve grande parte do êxito. Sentia que era algo que nos escapava a todos. Aqui, no Vaticano, 99 por cento das pessoas dizia que não se iria concretizar, e depois aquele 1 por centro foi crescendo. Sentia que estávamos a ser impelidos para uma coisa que não nos tinha ocorrido e que, aos poucos, foi tomando corpo. Não era, de todo, um ato político - e isso eu percebi-o desde logo -, mas um ato religioso: abrir uma janela e dizer: "A oração também é um ato político com maiúscula".» .«Decidi ir porque o presidente Peres [de Israel] me convidou. Eu sabia que o seu mandato terminava esta primavera, e assim vi-me, de alguma forma, obrigado a ir antes. O seu convite precipitou a viagem, não tinha pensado fazê-la.»

Judeus e cristãos_____________________________    
«Não se pode viver o seu cristianismo, não se pode ser um verdadeiro cristão se não se reconhece a sua raiz judaica. Não falo de judaísmo no sentido semita de raça, mas em sentido religioso. Creio que o diálogo inter-religioso deve aprofundar isto, as raízes judaicas do cristianismo e o florescer cristão do judaísmo. Percebo que é um desafio, uma batata quente, mas pode fazer-se como irmãos. Eu rezo todos os dias o Ofício Divino [Liturgia das Horas] com os salmos de David. A minha oração é judaica, e depois tenho a Eucaristia, que é cristã.»

Antissemitismo______________________________
«Não saberei explicar porque acontece, mas creio que está muito unido, em geral, e sem que haja uma regra fixa, à direita. O antissemitismo aninha-se solidamente melhor nas correntes políticas de direita do que de esquerda, não é? E ainda continua. Inclusive, temos quem negue o Holocausto, uma loucura.»

Arquivos do Vaticano e Pio XII------------------------
«[A abertura dos arquivos] trará muita luz. Sobre este assunto o que me preocupa é a figura do papa Pio XII, o papa que liderou a Igreja durante a Segunda Guerra Mundial. Há que recordar que antes ele era visto como o grande defensor dos judeus. Escondeu muitos nos conventos de Roma e de outras cidades italianas, e também na residência de verão de Castel Gandolfo. Aí, no quarto do papa, na sua própria cama, nasceram 42 bebés, filhos de judeus e de outros perseguidos lá refugiados.
Não quero dizer que Pio XII não tenha cometido erros - também eu cometo muitos -, mas o seu papel deve ser lido no contexto daquele tempo. Teria sido melhor, por exemplo, que não falasse, para que não fossem mortos mais judeus, ou que o fizesse?
Quero também dizer que por vezes fico com alguma urticária existencial quando vejo que todos atacam a Igreja e Pio XII, esquecendo-se as grandes potências. Sabe que conheciam perfeitamente a rede ferroviária dos nazis para transportar os judeus aos campos de concentração? Tinham as fotografias. Mas não bombardearam estas linhas ferroviárias. Porquê? Seria bom falar de tudo um pouco.»

Pároco ou chefe da Igreja?--------------------------------
«A dimensão do pároco é a que mais mostra a minha vocação. Servir as pessoas sai-me de dentro. Apago as luzes para não gastar demasiado dinheiro, por exemplo. São coisas de pároco. Mas sinto-me também papa. Ajuda-me a fazer as coisas com seriedade. Os meus colaboradores são muito sérios e profissionais. Tenho as ajudas necessárias para cumprir o meu dever. Não se deve jogar ao papa pároco; seria imaturo. Quando chega um chefe de Estado, tenho de recebê-lo com a dignidade e o protocolo que merece. É verdade que tenho os meus problemas com o protocolo, mas é preciso respeitá-lo.»

Mudanças e projectos--------------------------------------
«Não sou nenhum iluminado. Não tenho nenhum projeto pessoal, simplesmente porque nunca pensei que ficaria aqui, no Vaticano. Todos o sabem. Cheguei com uma pequena mala para voltar logo para Buenos Aires. O que estou a fazer é cumprir o que os cardeais reflectiram nas congregações gerais, isto é, nas reuniões que antes do conclave tínhamos todos os dias para discutir os problemas da Igreja. De lá saem reflexões e recomendações.
Uma muito concreta foi de que o futuro papa deveria poder contar com um conselho externo, ou seja, um grupo de conselheiros que não vivesse no Vaticano. O conselho dos oito cardeais é composto por membros de todos os continentes e tem um coordenador. Reúne-se aqui a cada três meses. Agora, a 1 de Julho, teremos quatro dias de reuniões, e vamos fazendo as mudanças que os próprios cardeais nos pediram. Não é obrigatório que o façamos, mas seria pouco prudente não escutar aqueles que conhecem as situações.»

«A ida a Jerusalém do meu irmão Bartolomeu I foi para comemorar o encontro de há 50 anos entre Paulo VI e Atenágoras. Foi um encontro após mil anos de separação. A partir do Concílio Vaticano II a Igreja católica fez esforços para se aproximar, e o mesmo da parte da Igreja ortodoxa. Com algumas Igrejas ortodoxas há mais proximidade do que com outras. Desejei que Bartolomeu estivesse comigo em Jerusalém, e lá nasceu o projeto para que estivesse presente também na oração no Vaticano. Para ele foi um passo arriscado, porque lho podiam atirar à cara, mas havia que abraçar este gesto de humildade, e para nós é necessário porque é inconcebível que estejamos divididos como cristãos, é um pecado histórico que temos de reparar.»

Fé, ciência e ateísmo___________________________
«Houve um aumento no ateísmo no período mais existencial, talvez por influência de Sartre. Mas depois deu-se um passo à frente, em direção à procura espiritual, o encontro com Deus de mil maneiras diferentes, e não necessariamente ligadas às formas religiosas tradicionais.
O confronto entre ciência e fé atingiu o auge no Iluminismo, mas hoje não está tão na moda, graças a Deus, porque todos nos demos conta da proximidade que existe entre uma coisa e outra. O papa Bento XVI tem um bom magistério sobre a relação entre ciência e fé. Em geral, a maior parte dos cientistas são muitos respeitosos da fé e o cientista agnóstico ou ateu diz: "Não ouso entrar nesse campo".»
«Vêm muitos chefes de estado e é interessante a variedade. Cada um tem a sua personalidade. Chamou a minha atenção um elemento transversal entre os políticos jovens, sejam do centro, de esquerda ou de direita. Talvez falem dos mesmos problemas, mas com uma nova música, e agrada-me, dá-me esperança porque a política é uma das mais altas formas de amor, de caridade. Porquê? Porque conduz ao bem comum, e uma pessoa que, podendo fazê-lo, não entra na política para servir o bem comum, é egoísmo. Quem usa a política para o bem próprio, é corrupção. Há cerca de 15 anos os bispos franceses escrevera, uma carta pastoral, uma reflexão com o título "Réhabiliter la politique" ("Reabilitar a política"). É um belo texto, faz compreender todas estas coisas.»
«O papa Bento realizou um gesto muito grande. Abriu uma porta, criou uma instituição, a dos eventuais papas eméritos. Há 70 anos não havia bispos eméritos. Hoje, quantos há? Bom, como vivemos mais tempo, chegamos a uma idade em que não podemos andar para a frente com as coisas. Eu farei o mesmo que ele, pedirei ao Senhor que me ilumine quando chegar o momento e me diga o que devo fazer. Ele certamente mo dirá.»

Retiro-para-repouso---------------------------------
O Papa tem um espaço reservado numa casa de retiros em Buenos Aires (diz o jornalista)]. 
«Eu teria deixado o arcebispado no fim do ano passado e havia já apresentado a renúncia ao papa Bento XVI quando atingi os 75 anos. Escolhi um quarto e disse: quero vir viver aqui. Trabalharei como padre, ajudando nas paróquias.

Como gostaria de ser recordado-------------------
«Não pensei nisso, mas agrada-me quando alguém recorda outra pessoa e diz: "Era um bom homem, fez o que podia, não foi assim tão mau". Com isso me conformo.»

sexta-feira, dezembro 19, 2014

BELAS ARTES E OS SEGREDOS CONVENTUAIS











As Escolas de Arte, desde as últimas décadas do século anterior, foram sobretudo aliciadas pela invenção e desenvolvimento das chamadas tecnologias de ponta, máquinas que pareciam anunciar um distante mundo do futuro, aparelhos e próteses cujas funções permitiam, com efeito, abrir múltiplos espaços à criatividade. As teses que desbravaram tais domínios, estudando as virtudes tradicionais da pintura, por exemplo, em jeito de simbiose com os modernos instrumentos, transferiram para as velhas oficinas dos velhos mestres vários patamares apropriados aos novos modos de formar. Em bom dizer, no entanto, esses entrosamentos de tecnologias híbridas, e outras, não passaram, durante muito tempo, de meras somas de crescimento. O desenvolvimento das aptidões humanas, ou da sociedade na sua amplitude maior, realiza-se noutro comprimento de onda (digamos) e apesar das interferências. Terá de ser sempre enquadrado numa perspectiva filosófica, no âmbito de um espírito produtivo e vocacionado para a descoberta de sucessivas verdades. No século XX, por exemplo, o advento da fotografia alterou a problemática da relação entre diferentes tipos de imagens e novas funcionalidades. Mas a máquina fotográfica, sofisticando-se a breve prazo, estava sujeita, a despeito dos usos, ao mundo das somas e das «regras» de mercado. Perante as apontadas tecnologias tradicionais da representação, a fotografia conquistou rapidamente território — por dispor, com menos esforço e outra agilidade de processos inconfundíveis ao registar, num apreciável rigor, pessoas ou objectos. Para lá dos seus aspectos lúdicos (ou seduções de consumo), a câmara fotográfica, entre muitos outros meios de maior complexidade, veio contribuir, com efeito, para clarificar a mobilidade das percepções, o próprio alargamento da consciência numa certa concepção do saber superior do Homem. É esta, porventura, a perspectiva que importa à criação artística. Seja como for, o encontro dos nossos talentos com a diversidade dos meios instrumentais, embora já anuncie uma frutuosa viagem em direcção ao futuro, dificilmente pode suportar a demora das esperas por cada especialização. E a terrível pressa em gastar, no provável  direito de possuir, bem como no de achar o novo mas sem nunca esperar pelas terapêuticas revolucionárias, acaba por contribuir e para a regular massificação das ofertas, desbaratando o gosto, o apelo das ideias sobre o mundo, a própria ficção do amanhã. Esta crise cada vez mais descontrolada tornou redutor o projecto, misturou fugas em frente ocorridas pelo medo encoberto dos limites e da morte. Um sonho de utopia, na linha da cibernética em que o tempo dos replicantes já se encontra  programado, como acontece na trágica beleza do filme «Blade Runner». Essa obra alerta-nos para um antigo temor: cada replicante do modelo mais avançado, quase clone do Homem, seu inventor, carregando capacidades em certo sentido bem mais concertantes do que as humanas, está destinado, talvez como segurança contra o florescer de afectos ou dotes individuais, a uma vida de apenas quatro anos, lembrando as borboletas que sobrevivem quatro horas. Metáfora aterradora, sem dúvida, pela qual nem se vislumbram significativas melhorias bio-tecnológicas capazes de dilatar o destino do Homem contra a absurda proximidade da morte.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

CARTA PARA TI ESQUECIDA AO FUNDO DA CAMA



Foi muito difícil ver-te partir. A tua cabeça afastava-se para o elevador e eu tinha a sensação de que já não voltavas a fim de te ajudar, revoltado com Deus, obreiro da tua doença e daquelas cansativas noites em que o teu corpo se imobilizava. Ralhavas. Querias mover o que já mal se movia e eu chorava a olhar para a tua cabeça cansada. E à noite, o Miguel e a Daniela partiam, todos os dias a começar o que nós já quase acabámos. Nestes momentos é que tudo se torna claro: eu olhava para a televisão, para aquele terrível Eixo do Mal, mas a minha cabeça voltava-se para o teu maple, onde já não estavas. Nunca soubeste verdadeiramente como gosto de ti e sobretudo como me fazes falta, mesmo tocando aqui e ali para ajudares as tuas pernas em perda. E de repente tudo me fazia falta: os jantarinhos à noite, o fecho da Casa dos Segredos, o sono puxado a letras de romance. Agora escrevo-te sem pretensão nenhuma, apenas para te dizer que faremos todos os possíveis para estares ao pé de mim, a olhar para o canal 14 e para a Duquesa de Alba. As tuas botas ali alinhadas lembram-me tudo e o tempo dos teus passos ainda bem direitos a caminho do Cataplana.
Ali atrás estão as tuas coisas, não quero imaginar o que sofreste ao ser analisada, mas essa era a esperança possível que nos restava explorar. Reza por mim e por ti, eu acredito nessas rezas, porque são da nossa vida e não de Deus nem dos anjos. Num mundo tão conturbado perto do nosso fim, todos os instantes que restarem, copiados daqueles em que as pernas nos levavam a sítios diversos, devem ser aproveitados, com ou sem lágrimas.

Beijo
João

segunda-feira, novembro 24, 2014

CONSIDERAÇÕES SOBRE INTERSTELLAR




As razões da crítica de cinema, relativamente à qualidade deste filme, são dúbias; onde me foi possível investigar encontrei o seguinte balanço através dos símbolos das estrelas: Jorge Mourinha ●●●● Luis Oliveira ●● Vasco Câmara ●● Todos os outros intervenientes desta área dividiram os pontos nesta mesma proporção. E isso significa, pelo menos, que o filme não atinge nunca os cinco pontos e desce igual e frequentemente até às duas sinalizações. Nada que se pareça com o efeito desencadeado, a todos os níveis, pelo idêntico trabalho de Kubrick com o inesquecível «2001, Odisseia no Espaço».

A sinopse do filme pode resumir-se à seguinte situação: o planeta terra começa  a perder as suas características vitais de sustentação da vida, isolando as pessoas em culturas do âmbito agrícola, devido aos problemas originados pelo vento, o pó e a fraqueza solar. Secretamente a Nasa estuda a alternativa de lançar para uma próxima galáxia, contornando a relatividade de Einstein, expedições em busca da planetas capazes de permitirem a emigração para lá da Humanidade, em fases de abertura a dados de se integrar nesses espaços e prolongar a sua persistência contra o desaparecimento.

Jorge Mourinha (crítico do “Público”) aponta desde o início que a qualidade de relojoeiro marca desde logo a natureza da obra, porque tudo tem que ser feito depressa mas a tempo e com tempo, no domínio da própria vertente do tempo, da mobilidade acima do controverso limite da velocidade da luz e da realidade do próprio espaço. A ideia de atravessar o espaço usando as potencialidades de um "buraco negro" permitirá encurtar o tempo e aproximar o espaço, emergindo numa galáxia onde, com risco, será possível estudar três planetas para lograr o transplante dos humanos para um novo habitat. Esta controversa viagem baseia-se na dinâmica propulsiva e na relação entre a matemática gravitacional e a física quântica, permitindo arriscadíssimos retornos, mesmo enfrentando a diferença dos tempos (das idades) entre quem retornasse e quem ainda pudesse estar vivo na Terra, numa diferença de cerca de 80 anos.

Todas as cenas iniciais do filme têm um acertado clima das planícies americanas, casas rasteiras em madeira castanha, pó e vento envolvendo enormes plantações de milho. Está bem climatizado, um fazendeiro que já andara pela NASA parece afrontado pela filha na ideia de participar na primeira viagem ao cosmos. Mas estas sequências, com tempestades de areia, pecam por falta de uma segunda dimensão das coisas em risco e por uma óbvia banalidade narrativa. Mas não deixa de esboçar alguma inquietude porque se pressente que o mundo vai ser, daqui para a frente, sempre assim, perdendo inclusive a capacidade de produzir os meios de subsistência.

É então, já não sei bem como, que o fazendeiro americano, lembrando um cowboy, descobre sinais de uma instalação vedada (o suspense é breve) e acabará por ser metido numas instalações secretas da NASA, onde afinal alguém o conhecia e se calhar o esperava. O cenário parece pertencer a um Thriller cujo orçamento obrigou a filmagens num armazém pardacento.●● Não há elementos de fascínio. Claro que, atrás de um portão que se abre se pode ver um foguetão Saturno, à escala, sem se ver a  fuselagem  superior,  espirrando  os fogozitos de ralenti. O  fazendeiro  troca impressões com o grande cientista que dirige aquilo (estereótipo de sábio velho e quem sabe se maníaco quanto à sua tese), que desvenda as novas formas de trabalhar com a gravidade, numa relação de tempo e espaço. O movimento de propulsão organiza-se em  função da gravidade e das travessias pelo "buracos negros". As reuniões em torno do segredo da viagem e da sua tecnologia são a cópia de qualquer conselho do FBI na iminência de um ataque à URSS. 
















Só depois desta mediania  se começa a ver a azáfama de carros de aeroporto, coisas de astrofísica, entrevistas. O fazendeiro acaba, a princípio com relutância (pela sua inteligente filha, pela sua inquieta mulher), de aceitar entrar na aventura. Volta a casa (como se vê, a instalação secreta da NASA estava ali à mão se semear) e defende a sua intervenção — drama sentimental e paternal, a impossível promessa à filha de que voltará.

Daqui para a frente é o levantamento real do foguetão e da separação dos seus fragmentos, além da ejecção do módulo para a viagem. É pouco crível, e forma imagística, a súbita existência deste módulo, dentro do qual os astronautas se preparam para viajar durante dois anos até perto de Saturno, Júpiter. O arranque faz-nos passar de um silêncio espacial para o troar dos motores: o ruído é tanto que nos obriga a proteger os tímpanos. Não há proporcionalidades entre o que terá acontecido e a representação disso para uma escala mil vezes menor (espectadores).É um erro da incultura actual.●●
Para esta primeira fase os astronautas, incluindo uma mulher que nos distrai da leitura dos materiais alumínicos, espaços surdos, tubos, quase nenhum tablier ligado, os personagens metem-se nuns tanques de líquido (amniótico?) e lá ficam no nirvana, separados da vida e do tempo. Quando acordam (dois anos depois) erguem o tronco de súbito, atordoados, fingindo exactamente aquilo que acontece a quem quase se afoga no mar e tosse para expelir a água dos pulmões.●● São pormenores. Mas tais pormenores desdizem centenas de coisas em volta. Os cenários interiores das naves (parece que estamos sempre na mesma) são realistas, a imitar de forma mais pobre a balbúrdia do que acontece, por exemplo, nos salões cilíndricos da actual estação espacial. O ponto de vista para o exterior é-nos dado n vezes de um só ângulo, com o focinho da nave (o capot) apontado à frente, só por vezes assim mas a andar de lado perante uma turbulência de nuvens ou superfície planetária. E quando estes desgraçados se aproximam do «seu» planeta a  explorar, com alguma peripécias visuais mas sempre dentro de uma montagem cinematográfica em planos curtos, planos que não justificam (na soma final) as três horas do filme. Este planeta, que aparece após a travessia das nuvens, é todo um oceano. É um falhanço. «Perdemos», diz alguém. Amaravam: e nesse caso surge a primeira verdadeira imagem em que o realizador percebe que à escala do além tudo parece maior. A nave é um ponto no grande oceano; e, em homenagem aos actuais surfistas, uma grande onda, à frente de outras, pressupõe-se, obriga os homens a sair dali. A onda parece parada e, segundo as escalas, teria certamente mais de 200 metros de altura.  ●●●

A legendagem portuguesa é quase ilegível para quem vê o filme da última fila, único lugar adequado para ver uma imagem com aquela escala (arquitectónica, não fílmica). Mas lá ficamos a saber que era urgente contactar com os outros módulos da missão Lázaro. Os planetas visados são o Miller, Edmunds e Mann.
Nós seguimos na nave Endurance, seguindo o sinal deixado pela missão Miller. Só que, por essa via, procura-se um planeta muito próximo do "buraco negro" Gargantua, em rotação. Essa rotação, por causa da força gravitacional, torna o tempo do planeta de destino mais lento que o da Terra. Miller, um só oceano, e incidentes, a perda de um companheiro, o encontro do que fora primeiro (Romilly). Os dados dizem que na Terra o tempo decorrido já atingira os 23 anos. Pobre Einstein. Na Terra a menina Murphy é entretanto adulta e trabalha na NASA, procurando resolver a equação do professor Brand. O homem trabalhara nisso toda a vida. Segundo se pode ler nos arquivos da Internet, ele achava que resolveria o problema de como os humanos poderiam manipular a gravidade. Ao morrer, percebeu que se enganara, que faltava um dado para achar uma singularidade gravitacional. A humanidade estava perdida. A ideia de um plano B consistia em integrar embriões humanos num outro planeta propício. Só uma bola e preta.
Na Endurance, dado a excessiva demora da missão, a malta escolhe ir a Mann ou Edmunds. Amélia (grande plano) ●●● prefere ir a Edmunds porque está apaixonada pelo astronauta. Discute com Cooper, o fazendeiro, dizendo que ele só quer voltar à terra. (Pode?●) Cooper vence e vão para Mann. Mas os dados emitidos por Mann eram manipulados: o astronauta lá chegado procurava assim um resgate por parte dos outros. Belas imagens gélidas deste planeta, com o nome do astronauta lá chegado (Mann). Este desgraçado tenta acoplar a nave de Cooper. Embora estas imagens superem a habitual monotonia dos interiores não digitalizados, ganhando palpitação e engenho, sendo interessante o  móvel  de acoplagem, não passam, pela falta de uma melhor «encenação», de algo já visto. Aliás o «mau» que forçara o resgate, comprometendo muita coisa, explode. Os outros percebem tudo, sobretudo o facto daquele planeta ser mais virtual do que real. Na fuga, e para superar o efeito de Gargantua, Cooper pensa em aliviar-se de lastro e, como bom fazendeiro, descola a fase lateral onde viajava Amelia, deixando-a no maldito Mann de montanhas que flutuam sobre algo como um oceano não estável. Nesta altura, os espectadores na sala tapam os ouvidos porque o ruído da Endurance deve atingir 120 decibéis.●●

Não vale a pena ir muito mais longe. Uma entidade extraterrestre, de cinco dimensões, ajuda Cooper a aparecer em casa de espaço aburdo. Se ali há uma quinta dimensão, porque carga de água tudo aparece, com largueza, em termos ortogonais? Cooper tenta comunicar com a filha mas flutua entre esse tempo e o tempo da sua morte. Consegue chegar à cama da figura, ambos conversam e ela manda-o embora, quando antes de partir, 80 anos atrás, lhe pedira para ficar.  A cama é uma grotesca citação do filme de Kubrick, mas rodeada de uma enorme família, o que nos deixa perplexos porque estava prevista o cadenciado apagamento da humanidade. Cooper percebe que o dado faltoso na equação de Brand era o amor. O espectador pergunta-se em que termos um sentimento sem determinação quantitativa pode fechar as quantidades relacionáveis de movimento, gravidade, espaço e tempo?●●

sexta-feira, novembro 21, 2014

SEM CABEÇA, SÉCULO XXI, EM NOME DE NADA



as horas do lamento pela memória dos desastres iniciais



as horas da criança a lembrar-se como os outros
                                       

quinta-feira, novembro 06, 2014

DESERTO, SOLIDÃO, VELHICE EM POBREZA








Estive a ver um documentário sobre o interior de Portugal, passando por estradas modernas e antigas, povoações breves, electrificadas, e cada vez mais, de sul a norte, quase avistando a fronteira de Espanha, terras e terras abandonadas, despidas de fauna, de floresta e cuidado. Tudo se tornava mais surdo e pedregoso para norte, entre vales imensos, serras brutais, salpicadas de árvores meio tombadas pelo constante sopro do vento. 
E então comecei a descortinar casas de adobe, em ruinas, outras de granito bem talhado, sem telhado, com dentes de pedra apontados ao céu. Não há gente nestas covas, nestas antigas culturas dedicadas à agricultura. Depois sim, aparecem casas perto umas das outras, ainda cobertas de telhas, fechadas, tudo fechado, ruas secas e sem o menor sinal de qualquer uso pedestre ou de carros de tracção animal. Animais também não havia, as cabras, as ovelhas, nem um sinal decisivo, ainda que breve, de vida humana. A câmara desliza pelo estranho silêncio, rasando paredes cinzentas ou apertando as fendas de algumas paredes, flores secas, restos de copas de árvores já mortas, tornando bela a sua sepultura, no próprio lugar em que haviam nascido, hastes em cruz, cruzadas, subindo ao alto, batidas pelo vento, pela luz, ou silenciosamente apagadas pelo avanço da noite.

Mas acabei por ver gente: um homem metido em casa, ouvindo músicas através de velhos aparelhos sobrepostos numa espécie de bancada. «Não faço mais nada, não tenho forças físicas e psíquicas para me chegar à rua. Agradeço à Junta ter-me fornecido esta baixada para a electricidade.» Perguntaram-lhe pela família mas ele abanou primeiro a cabeça para dizer depois que já não tinha ninguém; ou, se tinha, há muito que não diziam nada lá do fundo da Austrália para onde tinham emigrado.
Uns quilómetros acima, após uma deriva por ruinas belas e comoventes, dentro das quais ainda se vislumbravam restos de mesas, baldes, velhos engenhos para tratar a terra e as plantas rasteiras, lá estava a terceira povoação, alcandorada numa colina florestada, aliás também ferida de tons abertos de impossíveis flores que só sobrevivem com o trato de alguém. Um homem vestido de escuro, magro, sem dentes e um chapéu acabado de ter sido enterrado na cabeça, saíu da porta e parou, ao ver-me, nos dois degraus que ligavam o piso à terra e às pedras da vereda serpenteante. Era o único habitante da aldeia, empenhava-se com as flores e a conservação exterior de algumas casas ainda em bom estado, das quais, aliás, conhecia os donos, também fora do país.
Num outro lugar só povoado de mulheres, duas delas com mais de cem anos, foi possível ouvir histórias do tempo em que ali se festejavam várias datas e havia crianças e uma escola por perto. E Agora? «Agora somos apenas nós. Só ali a Ermelinda ainda recebe no verão a visita de um filho que foi há muitos anos para França». Perguntei: «E Não lhes pesa esta solidão, a subsistência?» Uma sorriu com amargura, outra gargalhou em três sopros, as outras pareciam de pedra. «A gente cá se arranja e ainda tratamos dos nossos mortos. Estamos aqui porque é o nosso lugar, é onde nos criámos, casámos e tivemos os nossos filhos. Para quê ir para as grandes cidades, onde já não somos ninguém, se calhar nem pessoas.» Rápido: «Não, não diga isso». Ela: «Não é por mal. É o que tem de ser. Até  as  terras  de  África  se  afogaram. Lá  ficaram dois filhos meus, na guerra. Que Deus os tenha em paz porque os de cá nem os restos nos resgataram. Mas não deixa de ser esquisito que ninguém se chegue aqui, a estes montes tão lindos. Aqui a minha amiga Floripes não se conforma. Não é por ter ficado e nem cartas receber. É porque, como ela diz, estas regiões abandonadas e tristes podiam produzir grande riqueza. Muita gente podia viver aqui com desafogo e paz.» A Floripes, esganiçada, acusou: «Eles querem escritórios e coisas ricas, o mar, as praias que a gente nunca viu. O estado já rachou todo o país em dois, de norte a sul, mais ou menos a meio, um risco azul  desumano e já desbotado. Ainda na semana passada, ali em baixo, no Pé de Galo, morreu a mulher do pobre Sebastião. E ele ainda não acabou de chorar. Então não acha tudo isto uma selvajaria? A Linda perdeu os dentes e uma perna, faz tudo sozinha, vestida de negro, com uma touca até ao fim das orelhas. Em  certas alturas do ano, com sol, andam por aí  uns moços e moças de Inglaterra. Tiram retratos a tudo e dizem, quando arranham o português, que nada como isto há na Terra inteira. Pode haver gente pobre e em pouca quantidade mas nunca numa metade inteira de um país, longe uns dos outros, morrendo devagar, todos e poucos perdidos das vozes amigas, o avô António, a Maria em pequena, o Zé, o cão maricas, tão meigo: de cada vez que alguém morria, de cada vez ele lá ía parar, como qualquer de nós. O cansaço e a fome, isso que ninguém sabe o que é, atenuamos nós cavando a terra e plantando tudo o que é fresco e serve para sopa, saladas, tapar  buracos da noitinha. Tá vendo? A gente ficou a viver num país vazio, ao lado da última grande estrada que fizeram à pala dos capitães. Vieram de África, fugindo, e empurraram só as pessoas para essa coisa das cidades, rasgando o que puderam e chamando aos seus irmãos de cá «tuga», «tuga», que era o que os outros diziam de nós a eles, lá, na mata. Aqui o mais difícil não é o trabalho nem as dores do lumbago ou dos pés: o mais difícil é saber ler os sinais da morte.»





quinta-feira, agosto 21, 2014

ESTAÇÕES PORTUGUESAS DE TELEVISÃO C-LIXO

PÚBLICAS BANALIDADES E HORAS DE LIXO PUBLICITÁRIO



Coloquei-me em frente do televisor, onde tantas horas já perdi de tédio e revolta, liguei a máquina de fotografar. Depois de uma fita de registos, apontei a objectiva ao ecrã e decidi esperar o tempo que fosse preciso. Num programa de balelas pela tarde fora, por esse país longe e deprimido, a televisão em directo, com apresentadoras, garotas fingindo que dançam e cantores de grau C, dizem a Portugal o que é Portugal -- e muita gente  das redondezas ali fica ao sol, de pé, embasbacada e capaz de sorrir, ou rir, ou gritar, ou concorrer a um prémio de mil euros. Aqui vem uma senhora com o menino (de pequenino é que se torce o pepino,  não é, ó Goucha?), toda contente, enquanto os frames seguintes,  pirosos até  mais, feitos à mão (popularmente) anunciam outra rodada e onde e a que horas.


senhora da CASA SUJA

Fui fotografando o que me agitava desde logo a alma: podem reparar no bom gosto desta composição anunciando o elenco dos artistas e dos técnicos. Claro que muita gente acha isto piroso, mas que raio, as coisas são como são: não há ali muita gente que cola assim as fotografias nos álbuns de família, embora se limitem a apontar, numa escrita manual, os nomes dos elementos da Casa, o Joaquim corta e cola, a Maria acha mal porque a senhora professora de Educação Visual indicou maneiras mais giras e sérias de conferir equlíbrio à composição das imagens e dos textos numa folha A4. Coitada da miúda, então não queriam ver que ela se achava mais apta do que os senhores da televisão?



as séries de nível C-lixo

As novas teconologias já nos metem nas mãos ecrãs pequenos, A4 (porque não), com tudo lá dentro: a publicidade antes do mais, as séries de acção (ali está o rapaz tocado por Deus para não disparar a pistola), coisas assim SYFY, MGM, internet, mensagens a cada minuto, entre o Terreiro do Paço já cosmopolita e um lugarejo da Ucrânia, massacrada pelos russos e ajudada diplomaticamente pela sonsa Europa e os caças americanos. Mas não julguem que a televisão assombra as pessoas com coisas dessas. As piores guerras são nos canais de notícias, horas seguidas, com uns marretas a falar de futebol, sempre de cátedra, com médicos e tudo, homens que medem o tempo, economicistas, políticos. Tudo pára, até as eleições, porque começou o Chelsea com o Benfica e em Espanha o Ronaldo fez um golo, que é preciso repetir três vezes e em ângulos diferentes. Esta mobilidade visual já foi estudada na Universidade, em teses de doutoramento. O futebol é uma das religiões mundo. A virilidade dá para enormes cenas de pancadaria cínica, no corpo a corpo, coisa que nunca se vê em coisas como Jardins Proibidos, novela que vem somar-se a mais cinco e repetições que os canais passam à noite, de manhã e de tarde, claramente acima das nossas possibilidades de percepção, sobretudo depois do debate político de ontem: já apareceram ténues sinais de desenvolvimento e o BES vai ser lavado da hemorragia que teve na sua própria sede. O INEM chegou outra vez tarde. Portugal não sabe onde estão os verdadeiros torcionários e já nem pode garantir a quem o BESI (Angola) emprestou cinco ou seis milhões de euros. Uns quanzas é que deviam calhar. Mudem de canal, mudem depressa, vai falar o professor Marcelo Rebelo de Sousa. Gravem, amanhã decifra-se a embrulhada.

como livrar as universidades do C-lixo

É preciso abreviar isto porque os minutos, na televisão portuguesa, são contados aos minutos, excepto quando se trata do futebol: dois canais, cinquenta minutos cada, com prolongamento, e jogos eternos, a oitenta milhões por contrato de jogador, o que não os impede de puxarem pelas camisolas, rasteirarem o parceiro, partirem maléolos e coisas assim. As fases em câmara lenta, repetidas com o seu ênfase próprio, mostram algo de semelhante a uma carnificina a cores -- e que nos lembra os escassos minutos das guerras em curso no Médio Oriente.
Este plano tratava, sucintamente dos cortes nos orçamentos de ESTADO para as Universidades. É claro que o Estado aforra muitos milhões populares com concursos como o euro-milhões certas taxas que mal se notam, das quais surgem poupanças que davam para o nosso primeiro-ministro não dizer aquelas coisas por causa do Tribunal Constitucional: então agora fez birra no discurso do Pontal e, porque lhe cortaram a CES, subiu a voz, garantindo que, se era assim, então não proporia mais reformas para a Segurança Social. É que ele pensa que a tal taxa era uma Reforma. Cortar nos salários é reconfigurar tudo, funções, projectos, interacção entre serviços, campos financeiros, económicos, justicialistas e de balanço.
Voltando aos reitores. Os homens têm razão: então o governo adianta 60 milhões de subsídio aos colégios privados e, este ano, ao Ensino Superior carregou com mais 14 milhões? Eu duvido destes números que li num jornal controlado por dinheiros de África. Mas é certo que aumentou, isso sei, e sei também que devia parar ou descer.

o «belo gosto» dos gráficos

Aqui têm uma grelha sobre desporto que prima pelo contraste e elegância das manchas gráficas. Isto é o pão nosso de cada dia: insersores de caracteres que se imobilizam no tema e não repetem o nome do convidado, letras de macarrão, simbolos desalinhados, rótulos  entre maneirismos de canal e de tema, por vezes a bonecama invadindo cenas inteiras, para que ninguém se esqueça que está vendo AMOR e VENTO (em cima, à direita do ecrã) e que está sintonizando o canal TUF1, e em breve terá acesso aos bonecos que invadiram por momentos o campo, com momices e dejectos, além do nome Rei Pirata. Isto é tudo ilegal, contra os direitos do espectador e os direitos dos autores, já pensaram. Aproveitam para olhar para baixo: é mais um troféu que tem esta cara e esta expressão, aspectos grotescos em nada ligados ao humor, nem à comédia, nem ao circo, nem à  revista à portuguesa, mesmo aquela que conquistou Lisboa, pelo génio de La Féria, no Politeama.


O cinema é coisa me!!!!!!nor: vamos às novelas


actores bons* argumentos rotineiros e de pacote

Tenho o maior respeito pelos nossos actores e acho que, se houvesse gente capaz do lado conceptual, argumento, inovação expressiva, fuga às convenções cariocas, poderíamos chegar a um ponto superior da arte de criar em televisão; no caso de configurações derivadas do cinema e mesmo do experimentalismo arrancado da era do vídeo.
É talvez altura para, lembrando a desmontagem crítica do saudoso Mário Castrim, apontar algumas coisas sobre as telenovelas. É verdade que os actores evoluiram de forma notável e chega a haver mesmo sequências com cenas muito bem pensadas, contextos cénicos bem favoráveis à relação das cenas e dos tempos, num grau de verosimilhança decisivo. Mas, curiosamente, um dos principais problemas começa nas angulares e na permanência irreal do estereótipo de cada lugar, do próprio guarda-roupa, de certas marcas psicológicas a que o «boneco» é forçado, em nome, porventura do reconhecimento existencial.
No caso da novela que está a terminar («Belmonte»), aliás mais ou menos bem urdida e com momentos apreciáveis de escrita (palavras e qualidade dos planos), há, como em todas, uma absurda geografia quanto a lugares e aspectos gerais, sobretudo os aéreos.
As instalações do grupo Belmonte são muito bem achadas e os interiores cénicos, em racord com o clima da Quinta, funcionam com muito interesse. O espaço sala do casarão Belmonte, onde a família comcentra refeições, troca de palavras e mesmo cenas de desconfiança de bom recorte, tem uma escala que permitiria encenações mais ricas e intencionais, quer ao nível do movimento dos actores quer do lado da câmara, circulando, subindo e descendo, por exemplo, na medida em que esse investimento no cenário implicaria a emergência das diferenças e das sombras.
Depois pensamos assim: só à o café da Beatriz em Estremoz, assaz munida de uma estalagem
que só perda por saídas e entradas parecerem demasiado teatro. É preciso que o espectador aprenda, mas isso não deixa de acontecer com recursos diferentes à tomada de vistas. Quase sempre, tudo está tão previamente fixado, que levanta a ideia das câmaras estarem coladas ao chão, desde o início e nos mesmos pontos. Tudo, aliás, acontece assim: a distância a que se entra no sala dos Belmonte, a falta de uma parede no café da Beatriz , a fixidez da sala dos Milheiros. E assim por diante, em todo o lado. Não me parece nada descabido combinar com certas lojas e cafés a captação de cenas curtas, uma compra, uma conversa com alguém dali. Os habitantes não podem ser só meia dúzia de figurantes. E a luz que se aplica aos cenários, se é de dia, tem de o parecer (neste tipo de registo), tal como à noite. Os espectadores seguem um fio em cortes da meada e não sabem a quantas horas. E não se fale nos calções e minisaias de todas as miúdas e raparigas. É bonito, dizia-me um velho, ver as pernas. Pois sim. Talvez seja por isso que está sempre sol, há sempre praia (nas novelas em geral) e ainda não aprenderam a iniciar uma relação amorosa despindo-se primeiro por baixo e só depois, ou entretanto, a roupa de cima. Os esterótipos das cenas de cama são risíveis: não é nada difícil melhorar essas encenações, marcando-as pelo que sucede psicologicamente com as personagens. Toda a gente salta sobre uma secretária, raramente sobre uma cama e desatam a despir-se um ao outro SEMPRE DA MESMA MANEIRA. E não estou a referir os actos de encosto à parede: o que se podia dizer a esse respeito (e à chuva, rara) poderia dar uma sequência jocosa.
Os fazedores de telenovelas (diz-se que por causa do turismo) aprenderam a filmar paisagens cidades ou aldeias através de vista aérea. Muito bem Dá jeito e, em muitos casos, dá a ver o outro lado da beleza. Mas isso não tem que ser feito sempre da mesma maneira, com o mesmo movimento de aproximação, os mesmos cavalos correndo, os mesmos toiros na margem. Pode haver uma questão económica. Há um parágrafo, sai plano aéreo inserido e a musiquinha assaz demasiado alta e quase sempre desapropriada do lima geral do enredo. Este recurso, ensopadamente repetitivo não tem sentido. Como aquela de os personagens, após uma troca rude de palavras, apanharem com um que resolve sair: vão quase sempre a quase correr. Será expressão? Sempre?
Um dos horrores de quem vê novelas é ter que chupar, por todo o lado e em todas as cenas, a música por vezes espantando os diálogos ou, na mesma altura, perante uma cena dramática, de murmúrios, entre um qualquer casal solitário, porventura ao fim do dia. Tudo o que se aponta aqui deveria ser revista, sem ceder a brasileiros e a batidas de cão. E também «proibir» os inserts com planos da rua em que o trânsito e as pessoas se deslocam à velocidade da luz. É aberrante e não acrescentam retira nada a nada. É apenas um erro grosseiro.
Era urgente escrever um livro sobre estas coisas. 
Mas termino. E termino dizendo que as novelas não precisam de rótulos aos cantos e de interupções para publicidade de outras e de produtos, com uma marca decrescente dos segundos que vão permitir retomar a acção. Uma cena é interrompida: vê-se no ecrã 30 s, e começa o relógio a  andar para trás. Isto várias vezes e com tempos diferentes. Para não falar nos intervalos onde já cheguei a contar 28 minutos de salada de anúncios. Depois é entre programas. E sempre assim. Se não há, falta legislação sobre isto: há países que regulam tudo e não permitem interromper um filme (já falo nos de qualidade) para passar durante 40s uma pasta dentífrica. Um amigo meu, disse-me: não ligam aos direitos, especiais e gerais, querem o dinheiro e usam 24 horas de televisão para, durante o dia, a impressão de que vimos mais publicidade do que formas de outra cultura,,cinema, teatro, novela, debates, palestras ilustradas, desporto com conta peso e medida, música séria, etc.
Ajuda aí na parte política, amigo Castrim.
Do Além ouve-se: eles mataram um dos maiores engenhos do século XX. E até o cinema, com os monstros do imaginário americano vão tragar a terra. Volta ao Kazan e ao Tarkovsky, entre outros. Em suma, escolhe.




                 intervalos e cortes de publicidade proibitivos     


Mário Soares, Presidente da República no início do processo de Abril  74, irrita-se com  as coisas de agora e diz o que lhe apetece. Está velho mas intervém. O seu mal não é a televisão, mas ainda sabe quem dorme por cima da sua cabeça: pode ser um sono  de amor ou um vulgar  simples  reclame  ao   perfume  da  agenda. Depois  tudo  corre  na  mesma:  o  ecrã mostra  a uma  hora,  sinal  de  que  vai  acontecer  um  programa:  mas  claro   que  uns  segundozinhos vêm mesmo a calhar  para  a  publicidade  ao  carrinho. Sempre. A  toda a  hora.  As  estações cartelizam  a  publicidade.  Quando  um   programa  mal  acaba,  antes  do  seguinte  lá vem  a cascata   da publicidade.  E  o  espectador  sem  licenciatura  de  chantageado  por  outro: está a dar publicidade. Só quando um termina, terminam todos.
Que bela liberdade de comunicar, que bela ética: todos escondem todos.

Olhem para cima, mais publicidade, mais sport, e ali não dizem que, na televisão portuguesa, desporto coorresponde a futebol. Uma das maiores invenções da moderna tecnologia é hoje prisioneira da forma como se transmite e se paga a si mesma: quase não serve para nada, prende os velhos às cadeiras, trabalha absurdamente 24 horas sobre 24 horas, esmaga o mundo sob o seu peso, esquemas de contrato, concorrências que implicam horrores de mau gosto e massificações em pós modernismo do humor, reles, reles até se morrer em solidão diante do «vidro» à cores e muito barulho. Os mais crentes no Além já se convenceram que preferem ouvir música celestial do que ter televisão com mil canais no quartinho de nuvens.

CONTINUAREMOS: SOBRETUDO DEPOIS DAS PRÓXIMAS GREVES DO PÚBLICO À TELEVISÃO PORTUGUESA, BEM COMO A GREVE DE ANUNCIANTES