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quinta-feira, julho 17, 2008

AS COISAS QUE NOS PASSAM PELA CABEÇA


As coisas que nos passam pela cabeça
quando um aviso de bala
crava no céu o primeiro estampido
e é depressa alarme de morte.
Logo o capim se quebra na queda
e todos em volta subitamente gritam,
todos e ninguém,
ali e além,
a vomitar mil chamamentos,
em brados imensos, de ferro ao acaso,
tudo no ar, entre ventos, por alguém,
tudo por nós, em suma,
contra o inferno inteiro e raso.
*
Cheira a urina no cheiro do capim quebrado
assombrando o resto de nós.
Pétalas no chão já esmagadas
e talvez, em murmúrio, ainda perfumadas,
sangradas,
morrendo com o peso do nosso medo
que nos queima os dedos
ao acaso dos outros dedos cravados no gatilho,
até a arma, ela própria, se calar.
*
As coisas que nos passam pela cabeça
quando o ar se torna límpido, de súbito calado,
devagar a sombra das árvores
no absurdo silêncio da guerra,
e os homens além, ou ali, riscados pela terra,
impossivelmente a chorar sobre o capim,
dizendo num sopro, baixinho, sim, sim,
Eu sei que sim, mãe.
*
Rocha de Sousa
memórias de Angola

3 comentários:

jawaa disse...

Não sei se há palavras para comentar isto.
Sei que toca muito fundo na alma de mulher-mãe.

naturalissima disse...

"As coisas que nos passam pela cabeça
quando um aviso de bala
crava no céu o primeiro estampido
e é depressa alarme de morte.
Logo o capim se quebra na queda
e todos em volta subitamente gritam,
todos e ninguém,
ali e além,
a vomitar mil chamamentos,..."

Olhei para os dois fragmentos de imagem, já com um sentimento angustiado... E o cheiro da lama suja, crescia a medida que meus olhos liam gritos de medo, de guerra, de desespero... de morte.

Como diz a Jawaa, isto é dificil de se comentar... com palavras. Há coisas como estas que são para se sentir em silêncio.

Reflectir.

Fiquei tocada, com este belíssimo poema, tio meu.

um beijo grande
Daniela

copa-rota disse...

As coisas que passam pela cabeça dum homem em tais circunstâncias, certamente fariam gelar a alma de qualquer um.

O sentimento lúgubre, que envolve
Um soldado verde e desamparado,
No silêncio frio da noite dissolve
A maternal e doce lembrança,
Dum tempo perdido, ou apenas parado
Na memória duma criança.

*********** ********** **********

Passou-me pela cabeça saúda-lo, mestre...


( Boas desconstruções! )

Até já,

Miguel